No Cinema do CCBB Brasília, sessões voltadas ao público infantil e familiar integram a programação da Mostra Primeira Infância

As sessões de cinema da Mostra Primeira Infância ampliam as possibilidades de acesso das crianças ao universo audiovisual, com uma curadoria voltada aos primeiros anos de vida e filmes que despertam a curiosidade, a imaginação e a experiência compartilhada entre gerações.

Cinema do CCBB recebe, até 29 de julho, sessões especiais de cinema concebido a partir de uma estética que respeita os tempos da infância e privilegia a experiência sensível. O objetivo é oferecer uma experiência para este público, fazendo com que a criança permaneça diante das imagens por mais tempo, observe detalhes, acompanhe os movimentos, perceba as transformações da luz, das cores e das formas e ainda tenha espaço para suas próprias interpretações. A programação integra a Mostra Primeira Infância – Ocupação Teatral Eranos.

Pensar o cinema para a primeira infância exige considerar as especificidades do desenvolvimento infantil. Nessa etapa da vida, é fundamental oferecer uma cinematografia de baixo estímulo, evitando a sobrecarga sensorial provocada por cortes excessivamente rápidos, sons muito intensos e excesso de informações visuais. Um cinema de baixo estímulo favorece a atenção, a observação, a escuta e o tempo para que a criança elabore o que vê, ouve e sente.

A menor sobrecarga favorece uma atenção profunda, na qual a visão e a audição são convidadas a perceber nuances muitas vezes despercebidas em produções de ritmo acelerado. Os sons, as pausas, as texturas sonoras e os movimentos delicados tornam-se elementos narrativos tão importantes quanto as imagens, possibilitando que a criança amplie sua capacidade de escuta, de observação e de imaginação.

Permitem que a criança organize seus pensamentos, formule hipóteses, atribua significados e estabeleça relações com suas próprias experiências. Da mesma forma, a contemplação é compreendida como uma atitude ativa: ao contemplar, a criança investiga, compara, imagina, emociona-se e produz conhecimento. Trata-se de um tempo de qualidade, no qual não há pressa para compreender ou responder, mas abertura para experimentar, sentir e descobrir.

A qualidade estética manifesta-se na escolha cuidadosa das imagens, dos enquadramentos, da fotografia, dos sons e do ritmo narrativo, oferecendo experiências que despertam a sensibilidade e o encantamento. Em vez de conduzir a criança a uma única interpretação, Os Pequenos Mundos e Cine.EMA criam espaços de abertura, nos quais cada criança pode construir diferentes leituras.

O curta de animação Os Pequenos Mundos apresenta uma obra construída a partir de caixas de papelão, compreendidas como brinquedos não estruturados. Diferentemente dos brinquedos que possuem uma função previamente definida, as caixas oferecem múltiplas possibilidades de exploração, permitindo que as crianças atribuam diferentes significados e usos de acordo com sua imaginação, curiosidade e interesses.

Ao longo da narrativa, as caixas de papelão surgem em diversas formas como pássaro, planeta, robô, animais, caixas risonhas, balões etc. ou seja, esse material simples transforma-se continuamente, evidenciando o potencial lúdico, que está menos no objeto em si do que nas experiências criativas que ele possibilita.

Os Pequenos Mundos conta a história de um filhote de cervo perdido (feito de caixa de papelão), e da jornada de uma boneca protagonista, que ajuda o filhote para o reencontro com seus pais. Em sua aventura se depara com diversas criaturas também feitas de caixa de papelão: as caixas-risonhas, o caixa-pássaro, a caixa-balão, o planeta-caixa e o gigante-caixa. A dramaturgia aponta para o cuidado e celebra a diversidade num mundo de fantasia construído especialmente para as infâncias.

Ao utilizar as caixas de papelão como brinquedos não estruturados, a obra aponta para a valorização da invenção, da brincadeira simbólica e a livre exploração, convidando as crianças a imaginar novos mundos, criar narrativas e construir conhecimentos por meio da interação com materiais acessíveis e versáteis. Assim, o curta reafirma que a potência da experiência estética e do brincar reside na possibilidade de a criança transformar objetos cotidianos em múltiplas formas de expressão, fortalecendo sua autonomia, criatividade e protagonismo.

Cine.EMA é uma série de curtas de animação que apresenta a relação entre sonoridades, imagens, letras e palavras, propondo experiências audiovisuais sensíveis voltadas à primeira infância. As obras são construídas a partir da integração entre elementos visuais e sonoros, criando narrativas que convidam as crianças a perceber ritmos, timbres, pausas, repetições e diferentes possibilidades de expressão da linguagem.

Cine.EMA foi criada a partir das poesias do livro Pô!Ema – poesia de criança, da escritora catarinense Sandra Coelho. As poesias do livro trazem a figura de uma Ema que se alimenta de poemas, elemento de mediação simbólica entre a criança e as poesias. O livro Pô! Ema – poesia de criança é uma mostra de poesias destinadas à infância que nasceram em apresentações da performance homônima, uma experiência interativa idealizada pelo Eranos Círculo de Arte que mistura teatro, literatura e audiovisual, onde a escritora Sandra Coelho encontra um grupo de crianças num ambiente intimista e juntas criam poemas para alimentar uma Ema e seus filhotes (bonecos digitais projetados em uma parede).

A proposta dialoga especialmente com o período em que as crianças estão iniciando o desenvolvimento da linguagem oral. Nessa fase, as experiências com sons, palavras, musicalidade e imagens desempenham um papel fundamental na ampliação do repertório linguístico, na percepção dos fonemas, na construção de significados e no fortalecimento das primeiras formas de comunicação. Ao associar imagens em movimento a palavras, letras e sonoridades, os curtas favorecem processos de escuta atenta, observação, experimentação vocal e atribuição de sentidos, respeitando os tempos e as singularidades de cada criança.

Em vez de antecipar processos formais de alfabetização, Cine.EMA promove uma aproximação estética com a linguagem, despertando a curiosidade pelas palavras, pelos sons e pelas imagens. As animações valorizam a exploração lúdica da oralidade e da sonoridade da língua, reconhecendo que a linguagem se constitui nas interações, nas experiências sensoriais e nas múltiplas formas de expressão vivenciadas pelas crianças.

(texto por: Sandra Coelho, Artista e Psicóloga)

Fichas técnicas: 

Os Pequenos Mundos (ano: 2024. duração: 9min)

Direção: Sandra Coelho | Direção de Arte: Adriano Guimarães | Roteiro e fotografias: Sandra Coelho e Leandro Maman | Animação e bonecos: Leandro Maman | Ambientação sonora: Hedra Rockenbach. 

Cine.Ema (ano: 2022. duração: 21min.)

Direção: Sandra Coelho | Desenhos e animação: Leandro Maman | Ambientação sonora: Bruno Andrade e Priscila Schaukoski.

Serviço:

Mostra Primeira Infância – Ocupação Teatral Eranos
Local: Centro Cultural Banco do Brasil Brasília

Endereço: SCES, Trecho 2, Brasília – DF
Data: até 2 de agosto de 2026
As sessões: Os Pequenos Mundos e Cine.EMA: de 7 a 29/7, terças e quartas, às 10h, 11h, 13h e 14h.

Programação gratuita com retirada de ingressos no site www.bb.com.br/cultura e na bilheteria física do CCBB Brasília, a partir das 12h do sábado anterior de cada semana da programação.

Capacidade do cinema: 70 lugares (com espaço para cadeirante e assentos para pessoas obesas)

Classificação indicativa: partir de 1 ano

Poliana Costa
Author: Poliana Costa

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