Por Cecília Peixoto**
Psicóloga / Neuropsicóloga
CRP 13435/01
Instagram: @ceciliapeixoto_psiO aumento dos casos de sofrimento emocional em crianças e adolescentes tem acendido um sinal de alerta entre profissionais da saúde. Um dos fatores que mais preocupa especialistas é o uso excessivo de tecnologia, fenômeno que vem sendo associado ao chamado **burnout digital infantil**.
A pediatra **Kelly Oliveira** destaca a importância de pais, responsáveis e cuidadores estabelecerem limites claros quanto ao uso de dispositivos eletrônicos. Segundo ela, o problema vai muito além de uma simples “dependência tecnológica”.
“O que está em jogo é o cérebro da criança, que ainda está em desenvolvimento, especialmente o lobo pré-frontal, região responsável pelo controle emocional, foco, tomada de decisões e controle de impulsos. Quando há exposição excessiva a estímulos digitais rápidos e intensos, essa área pode sofrer impactos importantes”, explica.
Estudos publicados na **JAMA Pediatrics** apontam que crianças que passam muitas horas por dia em frente às telas podem apresentar afinamento do córtex pré-frontal. De acordo com os pesquisadores, isso não significa “destruição do cérebro”, mas indica possíveis alterações estruturais e funcionais associadas ao excesso de estímulos digitais.
Essa mudança ocorre porque o cérebro se adapta aos estímulos predominantes. Quando crianças e adolescentes recebem recompensas rápidas e constantes — como as oferecidas por jogos, vídeos curtos e redes sociais — podem desenvolver menor tolerância ao tédio, dificuldade de concentração, maior impulsividade e redução do interesse por interações sociais presenciais.
Em casos mais graves, o quadro pode evoluir para esgotamento emocional, crises de ansiedade, distúrbios do sono e até comportamentos de automutilação relacionados ao uso desregulado das telas.
Especialistas alertam ainda que muitos desses sintomas podem ser confundidos com transtornos como TDAH, ansiedade ou depressão, ou até mesmo contribuir para o agravamento de quadros já existentes. Por isso, a avaliação do contexto digital da criança deve fazer parte da investigação clínica.
A **Organização Mundial da Saúde** estima que uma em cada sete crianças e adolescentes no mundo enfrenta algum tipo de transtorno mental. Embora as causas sejam multifatoriais, o uso excessivo de tecnologia é apontado como um dos fatores de risco associados ao aumento de casos de ansiedade, depressão e, principalmente, distúrbios do sono nessa faixa etária.
Diante desse cenário, especialistas reforçam que cabe aos adultos a responsabilidade de orientar, supervisionar e estabelecer limites saudáveis. O equilíbrio entre tecnologia, convivência familiar, atividades ao ar livre e interação social é fundamental para garantir um desenvolvimento emocional e cognitivo saudável.
O alerta está dado: prevenir é sempre mais eficaz do que remediar.





