Outubro Rosa: no mesmo barco, mulheres encontram no esporte um caminho para a vida depois do câncer de mama

Em Brasília, Canomama mostra como uma experiência de esperança durante o tratamento se transformou em uma rede de acolhimento, esporte e retomada da vida para sobreviventes da doença

Outubro Rosa: no mesmo barco, mulheres encontram no esporte um caminho para a vida depois do câncer de mama

Quando recebeu o diagnóstico de câncer de mama, Larissa Lima não imaginava que, em meio ao tratamento, surgiria também o projeto que mudaria sua relação com a doença e ajudaria a transformar a vida de outras mulheres. Anos depois, ela se tornaria presidente da Associação Canomama, de Brasília, organização que reúne sobreviventes do câncer de mama por meio da canoagem coletiva e que prepara uma programação especial para o Outubro Rosa. A trajetória de Larissa ajuda a traduzir uma das mensagens que a entidade pretende reforçar neste mês: existe vida depois do câncer — e ela pode ser reconstruída coletivamente.

A Associação Canomama atua desde 2015 no acolhimento de mulheres sobreviventes do câncer de mama por meio da canoagem coletiva. O projeto começou com 12 participantes e, em 8 de março de 2016, Dia Internacional da Mulher, foi lançada a equipe que a entidade apresenta como o primeiro time de “remadoras rosa” formado no Brasil. Hoje, segundo a associação, são 72 sobreviventes do câncer de mama.

A estrutura vai além dos treinos. A associação conta com a participação voluntária de profissionais de áreas como educação física, canoagem, fisioterapia, psicologia, nutrição e medicina. Na água, a própria dinâmica do Dragon Boat traduz a ideia de coletividade: a embarcação utilizada pela Canomama comporta 22 mulheres — 20 remadoras, uma tamborista e uma responsável pelo leme. Para avançar, todas precisam remar de forma sincronizada.

Em outubro, mês dedicado mundialmente à conscientização sobre o câncer de mama, a Canomama dá continuidade a uma programação de formação em Dragon Boat iniciada no final de setembro com atividades sobre a embarcação, a composição da tripulação e os comandos utilizados na modalidade. Para outubro estão previstas capacitações sobre procedimentos e diretrizes de segurança na canoagem, primeiros socorros, salvamento e segurança em ambiente aquático, além de conteúdos sobre organização esportiva, incentivo ao esporte, terceiro setor e proteção das mulheres. Em novembro, a formação prossegue com planejamento de atividades e treinamentos, técnicas básicas de remada e preparação prática de timoneiras, tamboristas e remadoras.

Uma notícia no meio da quimioterapia

A história de Larissa se encontra com a da própria Canomama. Ela estava entre uma sessão de quimioterapia e outra quando recebeu a visita do amigo e treinador Marcelo Bosi. Ele levava informações sobre um movimento internacional que utilizava o Dragon Boat com mulheres sobreviventes do câncer de mama e sobre a possibilidade de desenvolver uma iniciativa semelhante no Brasil.

“Eu estava semimorta, não sabia ao certo o que o futuro me esperava, mas aquela notícia foi uma bomba de esperança em meu coração e eu entendi que, se sobrevivesse, iria implementar esse projeto tão lindo”, recorda Larissa.

Depois de concluir o tratamento, ela retomou o contato com Marcelo e, ao lado da fisioterapeuta oncológica Nádia Gomes e do educador físico Tissiano, iniciou um trabalho de pesquisa para estruturar um projeto-piloto. Foram cerca de seis meses de estudos, visitas, conversas e levantamento de referências até que a proposta estivesse pronta até o início das atividades da Associação Canomama, em 2016. Para Larissa, aquele movimento representava algo maior do que a retomada da atividade física. O esporte tornou-se também uma forma de reconstruir perspectivas depois do tratamento e transformar uma experiência individual de adoecimento em um projeto coletivo de acolhimento.

A trajetória ajuda a ampliar também o olhar sobre o próprio Outubro Rosa. Além da prevenção e do diagnóstico precoce, surge outra questão: como reconstruir a vida depois do câncer de mama? No caso de Larissa, uma informação recebida ainda durante a quimioterapia se transformou em um projeto que hoje reúne dezenas de sobreviventes.

Das águas do Paranoá para outros países

O crescimento da Canomama levou a experiência iniciada em Brasília para além do Lago Paranoá. Em 2022, a associação realizou o 1º Festival de Dragon Boat de Mulheres Sobreviventes do Câncer de Mama e o 1º Encontro Nacional de Remadoras Rosa, reunindo delegações de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Panamá, Estados Unidos e Canadá.

Durante quatro dias, mulheres sobreviventes compartilharam experiências, participaram de atividades de formação e entraram na água para práticas e regatas de Dragon Boat. A programação reuniu ainda ações de promoção da saúde, atividades culturais, palestras e a Cerimônia das Flores, realizada em homenagem às mulheres que não sobreviveram à doença.

A realização do festival marcou também um passo importante na consolidação do movimento das remadoras rosa no país. O que começou com um pequeno grupo em Brasília passou a se conectar com equipes de diferentes regiões brasileiras e de outros países.

As conquistas esportivas também vieram. Em 2025, a Associação chegou ao lugar mais alto do pódio em competições no Canadá e no Chile, levando para fora do país uma trajetória construída a partir da combinação entre esporte, acolhimento e promoção da qualidade de vida.

Da experiência de Larissa durante a quimioterapia e das dezenas de mulheres que hoje remam lado a lado, a história da Canomama mostra que sobreviver é apenas uma parte do percurso. Depois do tratamento, há vínculos a reconstruir, projetos a retomar, novos caminhos a percorrer. E, às vezes, um barco inteiro de mulheres dispostas a remar juntas.

Um novo ciclo dentro e fora da água

A história da Canomama acaba de ganhar um novo capítulo. A associação iniciou o Elas Navegam – Dragon Boat, projeto destinado a 60 mulheres sobreviventes do câncer de mama em situação de vulnerabilidade social, prioritariamente moradoras do Distrito Federal. A proposta combina formação prática em canoagem com promoção da autonomia, inclusão social, trabalho em equipe e bem-estar físico e emocional.

A iniciativa amplia uma atuação que começou com 12 mulheres e hoje alcança dezenas de sobreviventes. Ao mesmo tempo, traz um desafio comum a muitas organizações sociais: como transformar um trabalho já reconhecido e com impacto comprovado em uma estrutura capaz de crescer de maneira sustentável?

É nesse ponto que a trajetória da Canomama se encontra com a Rede CT – Capacitação e Transformação. Representada por Juliana Martins Alves e Fernanda Jordão Formiga, a associação alcançou 100% de aproveitamento na primeira etapa da formação e avançou para a assessoria especializada em elaboração de projetos e submissão ao Ministério do Esporte.

“A Canomama já desenvolvia um trabalho consistente e de forte impacto social. O papel da Rede CT foi contribuir para que essa experiência também se traduzisse em maior capacidade de estruturar projetos, acessar mecanismos de financiamento e buscar sustentabilidade para ampliar sua atuação. O aproveitamento de 100% na formação mostra o comprometimento da organização com esse processo de fortalecimento”, afirma João Vitor Storino, coordenador Regional de Mobilização do CT.

Ao longo da jornada, a organização teve acesso a conteúdos sobre elaboração e execução de projetos, captação de recursos, gestão financeira, comunicação, equidade e prestação de contas. Depois da assessoria, submeteu seu projeto ao Ministério do Esporte e agora aguarda a análise da proposta.

Realizada pelo Instituto Futebol de Rua e pela Rede Igapó, com patrocínio de Itaú e B3, a Rede CT fortalece organizações sociais esportivas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, preparando-as para estruturar projetos e ampliar o acesso a mecanismos de financiamento.

No caso da Canomama, esse fortalecimento pode ajudar a colocar mais mulheres dentro dos barcos, alcançar novas sobreviventes e dar continuidade a uma rede que permanece mesmo quando o treino termina.

Serviço
Associação Canomama

Poliana Costa
Author: Poliana Costa

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