Jornal Daqui DF acompanhou de perto a construção do Vencedor, nova embarcação projetada para receber até 150 pessoas, e descobriu uma história de família, trabalho, fé e perseverança que começou no Pará e ganhou novos rumos no Distrito Federal

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Quem passeia pelo Lago Paranoá e observa as grandes embarcações levando turistas pelas águas de Brasília dificilmente imagina onde algumas delas começaram a ser construídas.
A resposta pode surpreender: São Sebastião.
Foi lá que o Jornal Daqui DF encontrou o Sr. João em meio a ferramentas, materiais e à enorme estrutura de seu mais novo projeto: o Vencedor, embarcação projetada para receber até 150 pessoas.
Ainda é possível enxergar o “esqueleto” do barco. Mas o trabalho já dura cerca de um ano e a previsão é de aproximadamente um ano e quatro meses até a conclusão.
“Em dezembro, se Deus quiser, estará na água esse barco”, conta Sr. João.
O Vencedor deverá seguir para o Lago Paranoá e ser utilizado em passeios turísticos e também em eventos, aniversários e até casamentos.
Mas conhecer a construção desse gigante acabou levando nossa reportagem a outra descoberta: a história do homem e da família por trás dessas embarcações.
Do Pará para São Sebastião
A relação de Sr. João com os barcos começou ainda jovem, no Pará, onde trabalhou durante anos com embarcações.
Em 21 de julho de 2014, decidiu tentar uma nova vida no Distrito Federal.
“Cheguei só com uma muda de roupa numa mochilazinha.”
Em São Sebastião, foi morar em uma kitnet na quadra 102. Sem barco próprio, começou a trabalhar no Lago Paranoá utilizando uma pequena embarcação alugada.
Enquanto tentava construir uma nova vida em Brasília, a esposa, Simone do Socorro Mello da Costa, permaneceu no Pará cuidando de quatro filhas pequenas. A caçula tinha apenas dois anos.
“Eu assumi uma responsabilidade de mãe e pai delas. Era eu que tinha a responsabilidade de cuidar, levar para a escola, buscar, fazer comida. Era eu e quatro crianças pequenas”, relembra Simone.
“Eu queria que ele voltasse”
Cerca de três anos depois, Sr. João pediu que a esposa e as filhas viessem para o Distrito Federal.
Simone não gostou da ideia.
Ela esperava justamente o contrário: que o marido retornasse ao Pará.
“Minha intenção era que ele voltasse para lá, não eu vir para cá. Eu não queria vir de jeito nenhum.”
Depois de conversar com os pais e pensar principalmente nas filhas, Simone decidiu enfrentar a mudança.
Colocou as roupas das crianças em uma bolsa e embarcou pela primeira vez em um avião. As próprias coisas ficaram para trás porque, naquele momento, ela ainda imaginava que voltaria.
“Eu vim sem expectativa de vida. Vim com vontade de voltar no dia seguinte. Não trouxe roupa, não trouxe nada, deixei tudo para trás.”
Ao chegar ao Distrito Federal, encontrou uma situação muito diferente daquela que imaginava.
“Eu achava que ele estava ganhando rios de dinheiro. Quando cheguei e vi a situação dele, fiquei mais triste ainda. Eu chorava todos os dias.”
A adaptação começou pelas filhas. Simone conta que matriculou as crianças e que os avanços delas na escola ajudaram na decisão de permanecer em Brasília.
Ela também queria trabalhar e contribuir com a renda da família. Fez serviços em casas de família, trabalhou como segurança de banheiro em uma casa noturna e decidiu que precisava encontrar uma atividade com a qual se identificasse.
Essa oportunidade viria justamente dos barcos.
Quando perder o barco virou motivo para construir um
Sr. João ainda trabalhava com uma embarcação alugada quando perdeu o acesso ao barco.
Sem ter como continuar os passeios da mesma maneira, voltou para casa e começou a pensar no que faria.
A resposta estava no conhecimento que havia trazido do Pará.
Ele construiria o próprio barco.
Conseguiu um espaço nos fundos de uma marcenaria na região do Pró-DF, em São Sebastião, comprou os primeiros materiais e iniciou o projeto.
Nem todos acreditaram.
“Quando comecei a fazer aquilo lá, foi uma chacota para a galera. Falavam: ‘desiste’. Eu dizia: ‘não vou desistir. Esse barco vai andar’.”
O trabalho avançava mesmo diante das dificuldades financeiras. Sr. João se lembra de dias em que chegava em casa por volta das dez da noite, cansado e com a pele incomodada pela fibra utilizada na construção.
“Tinha noite que eu chegava em casa dez horas da noite. Não tinha comida. Fazia uma farofinha de ovo.”
Até que o primeiro barco ficou pronto.
Mas ainda faltava uma peça fundamental: o motor.
Uma passageira ajudou a colocar o sonho na água
Sem dinheiro para comprar o motor, Sr. João recebeu uma ajuda inesperada.
Uma mulher que já havia feito um passeio com a família soube que ele estava construindo uma embarcação e quis conhecer o projeto. Encantada com o barco, perguntou sobre a possibilidade de sociedade.
Sr. João fez uma proposta: ele entraria com a embarcação e ela compraria o motor.
Ela aceitou.
“Deus mandou aquela mulher só para ajudar. Porque eu não tinha dinheiro para o motor”, relembra.
A primeira embarcação construída por ele em São Sebastião, com capacidade para cerca de 40 pessoas, finalmente chegou ao Lago Paranoá.
E aquele barco também mudaria a trajetória profissional de Simone.
“O meu primeiro trabalho fixo aqui em Brasília, que eu trabalho até hoje, foi nessa embarcação.”
Oito barcos construídos em São Sebastião
Daquele primeiro projeto até hoje, Sr. João afirma já ter construído oito embarcações, todas em São Sebastião.
O trabalho cresceu e se tornou uma atividade familiar. Sr. João é pai de oito filhos e avô de 15 netos. Esposa, filhos e outros familiares passaram a participar dos negócios e alguns também seguiram seus próprios caminhos profissionais.
“A nossa família foi crescendo. Todo mundo veio, depois ele trouxe um, trouxe outro, e agora a gente tem netos e netas aqui. A gente continua trabalhando junto, unido”, conta Simone.
Ela encontrou no turismo náutico a realização profissional que procurava desde que chegou ao Distrito Federal.
“Hoje eu me sinto realizada por ter conquistado meu espaço no mercado de trabalho na área em que trabalho, que é no turismo náutico.”
Entre as embarcações da família está também o temático Pirata, conhecido por quem frequenta os passeios no Lago Paranoá.
Primeiro veio Vitória
Os nomes dos barcos também guardam uma parte da história da família.
Quando chegou ao Distrito Federal sem nenhuma embarcação própria, Sr. João fez uma promessa: se um dia tivesse condições de construir um barco para trabalhar no Lago Paranoá, ele receberia o nome de sua filha mais velha.
Vitória.
“Eu falei: ‘o dia que eu tiver um barco aqui no lago, tiver condição de construir um barco, vou colocar o nome Vitória’, que é o nome da minha filha.”
E vieram os barcos com o nome Vitória.
Agora, diante de uma embarcação maior, Sr. João decidiu que era hora de escolher um nome diferente.
Vencedor.
Um barco para até 150 pessoas
O Vencedor surgiu da necessidade de aumentar a capacidade de atendimento.
Uma das embarcações anteriores recebe cerca de 70 pessoas. O novo projeto praticamente dobra essa capacidade.
“Eu já tinha construído outro barco menor e surgiu a necessidade de fazer um maior, para caber nosso público. O outro é para 70 pessoas e coloquei esse aqui para 150.”
Quando estiver pronto, o Vencedor deverá integrar as atividades de turismo náutico realizadas pela família no Lago Paranoá.
E, para Sr. João, navegar continua tendo um significado que vai além do trabalho.
“Para mim é uma emoção muito grande, uma terapia muito boa. É uma coisa muito boa na minha vida.”
“Quando a gente persevera, a gente consegue”
Ao conversar com o Jornal Daqui DF sobre tudo o que aconteceu desde sua chegada ao Distrito Federal, Sr. João se emociona.
Ele atribui a trajetória à perseverança, ao trabalho e, principalmente, à fé.
“Quando a gente persevera, a gente consegue o que quer. Não é murmurando que vai ganhar alguma coisa na vida.”
E faz questão de dizer que não enxerga as conquistas como motivo para soberba.
“Isso aqui não é por orgulho, não. Isso é honra de Deus, agradecimento a Deus por tudo. Sou grato a Deus em tudo.”
Ao lembrar do caminho percorrido, a emoção aparece:
“Até quando eu falo assim, eu me emociono, porque tudo é graças a Deus. Isso é vitória de Deus, não é para mim. A glória é Dele.”
De São Sebastião para as águas do Paranoá
A imagem atual talvez seja a melhor maneira de entender o tamanho dessa trajetória.
De um lado, está a lembrança de um homem que chegou ao Distrito Federal em 2014 com uma pequena mochila e precisou alugar um barco para começar a trabalhar.
Do outro, uma enorme embarcação sendo construída em São Sebastião para receber até 150 pessoas.
Entre os dois momentos estão Simone, os filhos, os netos, os barcos construídos, as dificuldades, as portas que se abriram e uma família que encontrou no turismo náutico uma forma de trabalhar unida.
Se tudo seguir conforme o planejado, em dezembro o Vencedor deixará São Sebastião para finalmente encontrar as águas do Lago Paranoá.
Quem estiver no Pontão poderá enxergar apenas a chegada de uma nova embarcação.
Mas quem conhece a história saberá que aquele barco começou muito antes de tocar a água.
Primeiro vieram as Vitórias. Agora, chegou a vez do Vencedor.





