Quanto custa não conhecer seus direitos?

Quando se fala em prejuízo, a maioria das pessoas pensa imediatamente em dinheiro. Uma cobrança indevida, uma dívida inesperada, um investimento malsucedido ou uma conta que não fecha no fim do mês.

Mas existem prejuízos que não aparecem no extrato bancário.

São perdas silenciosas, acumuladas ao longo do tempo, muitas vezes aceitas como parte natural da vida. O tratamento médico que não foi realizado. O benefício previdenciário que nunca foi solicitado. O patrimônio familiar que permaneceu anos sem regularização. A indenização que jamais foi buscada. A oportunidade perdida simplesmente porque alguém acreditou que não havia alternativa.

Todos os dias, milhares de brasileiros convivem com situações como essas. Não por ausência de direitos, mas por desconhecimento deles.

Essa talvez seja uma das maiores contradições da nossa sociedade. Vivemos em um país cuja legislação prevê mecanismos de proteção ao consumidor, ao trabalhador, ao paciente, ao aposentado e à família. Ainda assim, uma parcela significativa da população não consegue transformar esses direitos em realidade.

A distância entre o direito escrito e o direito efetivamente exercido continua sendo um dos grandes desafios da cidadania brasileira.

Na prática, o problema raramente começa dentro de um tribunal.

Ele começa quando alguém acredita que uma cobrança abusiva precisa ser aceita.

Quando um paciente entende que a negativa do plano de saúde é definitiva.

Quando um trabalhador se convence de que não vale a pena buscar orientação.

Quando uma família adia indefinidamente a regularização de seu patrimônio.

Quando um cidadão recebe uma decisão administrativa desfavorável e acredita que não existe qualquer possibilidade de revisão.

Em muitos casos, o maior prejuízo não decorre da ilegalidade em si. Ele nasce da desinformação.

A falta de informação gera conformismo. E o conformismo abre espaço para abusos, injustiças e perdas que poderiam ser evitadas.

Por isso, é um equívoco imaginar que o acesso à Justiça se resume ao acesso aos tribunais. Antes disso, existe algo ainda mais importante: o acesso à informação.

Uma sociedade verdadeiramente justa não é aquela que apenas cria direitos. É aquela que garante que as pessoas conheçam esses direitos, compreendam seu alcance e saibam como exercê-los.

Nesse contexto, a advocacia exerce uma função que vai muito além da atuação processual. Seu papel não se limita à solução de conflitos já instalados. Também envolve orientação, prevenção, esclarecimento e educação jurídica.

Muitas vezes, a melhor atuação profissional não é aquela que vence uma ação judicial. É aquela que evita que o problema aconteça.

Um contrato bem analisado pode evitar anos de litígio. Uma orientação previdenciária adequada pode impedir a perda de um benefício. Um planejamento sucessório pode preservar relações familiares. Uma informação correta pode impedir que um cidadão abra mão de um direito que já lhe pertence.

Quanto mais informação circula, menos espaço existe para a vulnerabilidade.

Quanto mais conhecimento alcança a população, menor é a distância entre a promessa da lei e a realidade vivida pelas pessoas.

Em tempos de excesso de informações e escassez de compreensão, talvez o maior desafio não seja criar novos direitos, mas tornar acessíveis aqueles que já existem.

Afinal, o custo de não conhecer seus direitos raramente aparece de uma única vez. Ele se manifesta aos poucos, em oportunidades perdidas, decisões equivocadas, prejuízos evitáveis e soluções que nunca chegaram a ser consideradas.

Por isso, vale uma reflexão simples: quantos problemas que hoje parecem inevitáveis talvez sejam apenas consequência de uma informação que nunca chegou?

A resposta para essa pergunta pode revelar que o verdadeiro valor do Direito não está apenas nas leis, mas na capacidade de transformar conhecimento em cidadania.

Dr. Audelino Ferreira dos Santos
Advogado. Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/DF – Subseção São Sebastião. Secretário-Geral da Comissão de Direito Médico da OAB/DF.

Dr. Vinícius Pereira Rodrigues
Advogado. Conselheiro Jovem da OAB/DF. Vice-Presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/DF – Subseção São Sebastião.

 

Poliana Costa
Author: Poliana Costa

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